domingo, 1 de novembro de 2026

esquecimentos

 Como parece difícil o meu equilíbrio emocional...

Ontem tive oportunidade de me confrontar com um buraco negro no cérebro! A que atribuí-lo? Ao automatismo que funciona para lá da consciência? E que não deixa vestígios nem registos?...

Tudo o que fiz se apagou. Da memória... Depois, um elo perdido alertou-me, gerou um pânico que me aturdiu, consequência -- penso eu -- do que ainda há pouco me aconteceu em Valência. Ainda que sem certezas, que só existem quando são absolutas, talvez mais que ter sido roubado tenha sido vítima de uma distracção fatal...

E ontem a situação repetiu-se: a distracção, o esquecimento do que tinha acabado de fazer...

Tudo começou por não encontrar o telemóvel, por dar pelo seu desaparecimento... (o que desde logo era uma impossibilidade -- o que tive sempre presente ainda que o desvalorizasse -- já que o teria utilizado na chamada feita pela A. através da alta voz no carro e na viagem que tinha acabado de fazer).

Não o encontrava! Sobreveio o desespero.

De seguida pensei na bolsa onde o guardo, bem como a carteira (a carteira!..), e as chaves... Também não a encontrava!

Já na companhia da A., que viera em meu socorro, desci pela terceira vez as escadas e fui (fomos) à garagem ver do saco. Onde estariam o telemóvel e a carteira... Nada! Novamente... A  A., expedita, ligou para mim e eis que o telemóvel respondeu!... estava no compartimento da porta do carro... foi uma primeira vitória!

Mas do saco é que... nada. E quem diz o saco, diz a carteira, quem diz a carteira diz os documentos todos... Ó vertigem! Outra vez, não!

Subi e... reparei num pequeno caderno que recordava ter colocado no saco entretanto desaparecido... como era isto possível? Não valorizei imediatamente esta conclusão porque a confiança em mim próprio já estava nesse momento suficientemente abalada...

Reatando a narrativa.

Quando encontrei na mesa o referido caderninho fez-se luz no meu espírito: automaticamente, como automaticamente tinha despejado o saco e o tinha arrumado no sítio habitual, corri para ele... e lá estava o saco, no seu sítio habitual! Sem fôlego, acorri ao local aonde pouso também as chaves e a carteira... lá estavam eles!

Como foi possível um apagão destes?!

Muito stress, muito esgotamento... ainda não estarei toralmente recuperado do recente choque do desaparecimento da carteira e dos documentos em Valência...

O que me aflige é não ter tido qualquer recordação dos meus actos tão recentes. Afinal tudo estava comigo, enfim o telemóvel estava no compartimento da porta do carro... (Já não é a primeira vez).
Mas o pânico, o pânico que se apoderou de mim... verdadeiramente homérico! Estaria enlouquecer, cheguei a questionar-me...
A A. ficou igualmente em choque, sabe que estou a envelhecer e teme pela perda das minhas faculdades...
Pregar-lhe estes sustos ainda me faz sentir mais culpado.

Ah! Como é verdade!
Escrever ajuda-nos a viver!




sábado, 11 de maio de 2024

Em homenagem ao Ramiro

 

Faria hoje muitos, 
ou demasiados anos?

Nem sei ao certo. 

Abominava aniversários

particularmente o próprio.

Não admitia envelhecer 

não dizia quantos anos tinha 

nem quando os fazia. 

Como quem se trava e estaca

à beira do abismo.


O destino,

o outro nome de deus, 

fez-lhe a vontade.

Mal se apercebeu 

que caia num sono sem sonhos.

Ele, para quem 

viver era sonhar.


Nunca saberemos o que aconteceu 

o que sabemos 

é o que imaginamos.


segunda-feira, 25 de março de 2024

 Dia de aniversário da minha mãe.

Este caderno é bem o caderno da crise. Em dois anos não cheguei ao fim. Talvez por causa do fim de muitas outras coisas. Bem espremido, o que restará dele? 

Que saudades do tempo em que em pé, entalado na multidão, balançando-me de um lado para o outro no meio da mole ao ritmo da marcha do autocarro, procurava reter na mente uma frase, uma descoberta, até que a pudesse registar num caderno análogo a este e antes que se varesse da memória...

Já houve tempos em que estes cadernos me salvaram a vida. É caso para dizer que não basta estar vivo para se poder dizer que estamos a viver.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

AO ENTARDECER, FICO A VER



Ao entardecer, fico a ver

os barcos a desaparecer

e a noite a avançar.

Há uma calma solene no ar

como que a dizer-nos 

que o dia está a morrer.

Como nós, também.

Mas já que estamos

em pleno milagre,

talvez amanhã 

ressuscitemos com ele.


Agora, um pouco depois,

acima da linha do horizonte

uma poalha rosa estendeu-se

de uma ponta à outra.

O verde escuro de algumas copas

Intensificou-se; 

apareceram as primeiras luzes

como alfinetes perfurando

a magnífica tela do cenário.


O silêncio ganha ecos,

o coração do mundo bate.

Os pássaros apressam-se 

a regressar aos ninhos.

Tudo anuncia a lua cheia

Que detrás daquele morro 

aparecerá para depois

se banhar majestosa

no mar que tenho pela frente.


Já se me torna difícil

ver o papel onde escrevo.

Tudo se funde.


O rosa foi-se; agora

é só omnipresente o azul acizentado,

os castanhos e os verdes reunidos,

enquanto um fantasma iluminado

cruza o mar feito lago á minha frente

e todos avançamos em direcção à noite,

à noite e à morte.


A lua cheia reapareceu

e vai subindo no que de

visível ainda sobra do céu.


Onde ela brilha

tudo se apaga

E assim se fecha

o caderno e o entardecer.


Sex, 29 Set 23

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

 GRAVAÇÕES


Caminhos e atalhos

17/03/2017

No caminho não há atalhos:

qualquer atalho é um atraso.


Decisões

26/06/2018

Deus me dê força

para me agarrar

às minhas decisões.


Falhar

17/12/2018

A arte de falhar não é

a arte de perder:

o erro fica connosco.


Casa

18/02/2019

Viver no paraíso

pode não ser suficiente.


Sono

12/05/2019

Adormecer é

estancar a hemorragia

de pensamentos.


Exércitos

11/02/2020

Para fazer um exército 

basta um uniforme, 

basta uma bandeira

e um hino.

Talvez por isso é que não gosto

de nenhuma destas coisas.


O jogo da cabra cega

10/10/2020

A memória anda sempre

atrás da consciência e

chega sempre atrasada.


O idealismo

10/10/2020

Aquilo que podia ser

é o universo paralelo

onde gostaria de me mexer.


Os desgostos

11/10/2020

São tantos os desgostos 

que já não consigo guardá-los. 

Quero esquecê-los.

É por isso que durante toda a vida

dei tão pouco tempo

a cada um deles.


A arte às escuras

14/12/2020

Quantos poemas não escrevi

de olhos fechados

no escuro da noite.


Na hora da morte, num só segundo

08/02/2021

Na hora da morte, num só segundo

vemos desfilar toda a nossa vida,

num só instante.

Eu, que estou a morrer

há muitos, muitos anos,

todos as noites sonho

com o passado em episódios.

Ausência

14/05/2021

Fazes-me tanta falta…

Demorei tanto tempo a perceber-te

que só o comecei a fazer

quando já não estavas!


Espelho

14/05/2021

É impossível prever tudo!

Falta sempre qualquer coisa…

Hoje foi… isto e aquilo,

e aquilo era tão óbvio…

Outra coisa era adivinhar

que iria utilizar este sistema

de falar sozinho e ter a esperança

de que devolvesse as tolices

que aqui planto.


Técnica

14/05/2021

Passei a vida a dominar a técnica

mas depois nunca a utilizei

e acabei por esquecer

todas as possibilidades

que se me tinham aberto.


Hospital de São Francisco

26/05/2021

Então porquê é que o senhor veio cá hoje?

Como? Não sabe? Já se esqueceu?

Então é bom sinal,

é sinal que já passou.

Obrigado, Senhor Doutor…


Torcer a vida

30/05/2021

É preciso torcer a vida

para que ela venha ao nosso encontro.


O lápis

02/06/2021

Naquela manhã percorri

as lojas todas da terra

à procura de um lápis,

vulgaris, de Lineu.

Nenhuma o tinha:

em nenhum sítio

sabiam o que isso era, 

só conheciam o lápis.


A alma e o corpo

20/08/2021

A alma é como o corpo

sente-se quando dói.


Registo

04/10/2021

Registar é fixar.

Pelo menos, tentar.


Jardins da Avenida da Liberdade

07/02/2022

Esquecer-me é a expressão

que cada vez melhor conheço.


Criar o mundo

26/03/2022

Só há uma forma de compreender

o mundo: é criá-lo.


Salvação

03/10/2022

Estou excluído da minha própria

salvação.


A bicicleta

04/01/2023

Primeiro passeio do ano:

qualquer pequeno obstáculo

tem que ser abordado de frente

sob o risco de queda.

É assim com a bicicleta,

com o barco e

com a própria vida.


Um dia aziago

09/06/2023

Um dia aziago,

aparentemente,

já que todas as intenções se goraram

ou quase todas:

bater com o nariz na porta

quando se procura um restaurante

para almoçar, nunca existir a cor

que se procura e pretende,

sentir na pele a ingratidão

da juventude, como uma

invectiva à nossa própria velhice

que já nos pesa tanto

e tanto esforço exige

para ser aligeirada.

Mas, por outro lado,

constatar que o princípio da incerteza

tudo inunda e que assim sendo

nada é já uniforme,

nem sequer a sucessão dos dias.

Talvez a chave para conseguirmos

sobreviver e seguir em frente

seja aquela frase curta e plena,

plena de graça,

de alguém que já não nos acompanha:

É um dia diferente…


A vida e a escola

18/09/2023

Não há escola da vida

que não seja

a escola da vida.










segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Aqui estou -- travado por mim próprio -- e, como dizia R., a conseguir ouvir a passagem do tempo. Com a remota esperança de assistir ao encher da minha própria maré. Sei, e no entanto estou paralisado, que só o fazer pode continuar a tecer o fio da vida.

Filologia, era a nomenclatura para a noção que queria transmitir, o que procurava.

(princípios de Outubro de 22)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Passo ao lado de ruínas: casas, jardins. Há muito que o mundo se fragmenta. Regurgita lentamente e reconstitui-se num outro. Mas a beleza, Meu Deus! Onde ficou?

Diz Roland Barthes que a poesia japonesa tem sempre um referente temporal: a uma estação, a uma hora do dia, a uma atmosfera (a ventania, a queda de chuva ou de neve...). É essa necessidade premente que sinto: nunca o perigo do desnorteamento, da confusão, de perder o pé, foi maior. Os anos escorrem uns sobre os outros de tal forma que a noção de quando acaba um e começa o outro se perde. Os lugares transitam, mudam de sítio, perdem a ordem cronológica. 

É preciso fixá-los. Prender os acontecimentos ao calendário, interromper a desordem em que se transformou a vida.

(25Out22)