SILÊNCIO Íntimo das escuridões e dos toucadores já tocado pela Voz pelos sons interiores da angústia dos passos nocturnos e secos selos da noite selos comemorativos da morte dos espelhos adolescentes inocentes que passamos os dias a preparar uma Cerimónia de velas acesas poemas já cegos já sentidos portanto penetro no Deserto decidido e rogo aos céus e às dunas à minha volta Silêncio já ! SILÊNCIO SENTIDO ! Só o Silêncio faz sentido ! Só o Silêncio soa desmedido ! Como um eclipse antiquíssimo ! E a chuva cai no Silêncio da Terra por muros e colunas sem fim ! do livro Juramentos, edições do interior, 1998 |
NAVEGADOR SOLITÁRIO À partida precisava também de um cronómetro um instrumento de precisão depois atravessei tranquilamente a baía com brisa fraca cortei como uma lâmina o rio primeiro depois o mar a passagem é tão bela. Escolhi esta saída esta paixão de resistência e de audácia a minha personalidade foi sendo revelada à medida que os dias passavam deslizei na água claro, eu não era um marinheiro experimentado era um solitário procurando relatos e o meu barco não é um conjunto de madeiras pregos quanto muito cordame e velas fanáticas de ventos de Mediterrâneos de Longas Datas. Para começar retomei os hábitos antigos envolvi-me por uma bruma espessa debruçei-me no passadiço rumei como um paquete profusamente iluminado na água. Quando a situação se torna muito perigosa recolho estas linhas à pressa ! do livro Cadernos do Interior, edições "O Pregão", Castelo de Vide, 1988 |
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
VISÕES DE FERNANDO PESSOA NO METRO DE LISBOA
Regresso à cidade longínqua
num ocaso que se avizinha
que se imagina decerto selvagem
caminho para um sítio e nada me demove
nos comboios subterrâneos
no carril central está escrito
PERIGO DE MORTE
São ímanes do silêncio que vigiavam a minha serenidade
a minha sanidade não me restituem
procedem do infinito e somem-se no infinito
estes comboios são desaparições
são carruagens de metro vazias
e tudo se acalma no seu errante silêncio
Incompreensíveis e melancólicas
lambem-nos as sombras das multidões
um silêncio profundo e terrestre
dormente que se avizinha que se adivinha e ilumina
entre grutas e minas
Indeciso digo então que vi Fernando Pessoa
com um telemóvel numa carruagem de metro
à hora de ponta
a escada rolante Baixa-Chiado estava imobilizada
Pessoa confrontou-se com um dístico que dizia
ATENÇÃO EQUIPAMENTO FORA DE SERVIÇO
Isto nada bate certo
Fernando Pessoa era há muito uma estátua
para fotografias de amantes e turistas
e ninguém espera que ele acorde do seu torpor
Mais tarde porém voltei a fixá-lo noutra estação de metro
impecavelmente vestido com seu estilo sempre lógico
despojado sóbrio talvez uma vez por outra
falasse sózinho
outra vez e finalmente tê-lo-ei visto a jogar dominó num
tabuleiro
de uma tasca sustendo no ombro um papagaio da amazónia
que ele instruía para falar por si
saúdou-me com seu obstinado sorriso de Gioconda
depois foi-se embora para apanhar a última carruagem
vazia da noite...
Vasco Câmara Pestana
sábado, 16 de junho de 2012
O melhor é não trazer nem malas nem muita bagagem
porque tudo pode virtualmente passar-se
entre o fogo dos meus olhos espiando
a religião que brotava dos lábios
quais vulcões vagamente ameaçadores
buracos deslizando como um escorpião
em qualquer sítio
nas praças
nas ruas
nos pátios
a SUDOESTE via-se a Constelação de Néons !
Permitam-me então a vossa companhia
somos de somenos importância
mas comemoramos uma vitória:
cercado por fossos um sahib navegador
chegara a Deli
e vinha por causa de uma impaciência apocalíptica !
--- Venho dizia para fruir do prazer das ruínas
venho atraído por versículos opulentos
que lerei sentado como um velho ancião hindu
meditando relendo e reencarnando
com os seus óculos de lente e aros grossos
como os de Ghandi em Varanesi !
Vasco Câmara Pestana
O deserto é todo
Ele a imagem da perfeição
O vazio que inebria
A estepe íntima que corrói
O silêncio para sempre murado
Incandescente
Onde se desmoronam todas as casas vermelhas
De Marrakech, Djemaa-el-Fna se eu soubesse
Que noutras vidas vagueei por aqui
Se eu soubesse que havia há séculos
Um vento fresco à minha espera
Em Agadir
Se eu soubesse destas labaredas que subiam da noite
Se eu soubesse de Marrackech, Imozeur, Tiout, Taroudant...
Se eu soubesse da vida, da verdadeira vida
Cultivada como coisa breve mas eterna
Fruto raro e solar de um cacto
Arde-me na boca no estômago na alma
Inútil se eu soubesse por Agadir
Teria ficado
Se eu soubesse que Essaouira existia
Para além dum bilhete postal
Teria traficado o meu ser mas teria ficado
Mas teria sonhado
E teria esquecido !
Ele a imagem da perfeição
O vazio que inebria
A estepe íntima que corrói
O silêncio para sempre murado
Incandescente
Onde se desmoronam todas as casas vermelhas
De Marrakech, Djemaa-el-Fna se eu soubesse
Que noutras vidas vagueei por aqui
Se eu soubesse que havia há séculos
Um vento fresco à minha espera
Em Agadir
Se eu soubesse destas labaredas que subiam da noite
Se eu soubesse de Marrackech, Imozeur, Tiout, Taroudant...
Se eu soubesse da vida, da verdadeira vida
Cultivada como coisa breve mas eterna
Fruto raro e solar de um cacto
Arde-me na boca no estômago na alma
Inútil se eu soubesse por Agadir
Teria ficado
Se eu soubesse que Essaouira existia
Para além dum bilhete postal
Teria traficado o meu ser mas teria ficado
Mas teria sonhado
E teria esquecido !
Vasco Câmara Pestana
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