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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Parece-me ter chegado à idade de tudo. 
Tudo vi, tudo conheci, já tudo nada me diz.
Tão rodeado de tudo praticamente tudo me falta.
A vida talvez seja isto:
a contradição em estado puro.


TUDO

"Uma palavra descarada e inchada de arrogância
Deveria ser escrita entre aspas
Finge nada deixar de fora,
para concentrar, incluir, conter e ter
Mas é apenas
um pedaço de tempestade"

Wislawa Szymborska

quarta-feira, 24 de outubro de 2012



SILÊNCIO

Íntimo das escuridões e dos toucadores
já tocado pela Voz
pelos sons interiores
da angústia dos passos
nocturnos e secos
selos da noite
selos comemorativos da morte
dos espelhos adolescentes


inocentes
que passamos os dias a preparar uma Cerimónia
de velas acesas
poemas já cegos
já sentidos
portanto penetro no Deserto decidido
e rogo aos céus
e às dunas à minha volta
Silêncio já !

SILÊNCIO SENTIDO !

Só o Silêncio faz sentido !
Só o Silêncio soa desmedido !
Como um eclipse antiquíssimo !

E a chuva cai no Silêncio da Terra
por muros e colunas sem fim !


 









do livro Juramentos, edições do interior, 1998


NAVEGADOR SOLITÁRIO

À partida
precisava também de um cronómetro
um instrumento de precisão
depois atravessei tranquilamente a baía
com brisa fraca
cortei como uma lâmina o rio primeiro
depois o mar
a passagem é tão bela.



Escolhi esta saída
esta paixão de resistência
e de audácia
a minha personalidade foi sendo revelada
à medida que os dias passavam
deslizei na água
claro, eu não era um marinheiro experimentado
era um solitário
procurando relatos
e o meu barco não é
um conjunto de madeiras pregos
quanto muito cordame
e velas fanáticas de ventos
de Mediterrâneos
de Longas Datas.

Para começar retomei os hábitos antigos
envolvi-me por uma bruma espessa
debruçei-me no passadiço
rumei como um paquete
profusamente iluminado na água.

Quando a situação se torna muito perigosa
recolho estas linhas à pressa !


do livro Cadernos do Interior, edições "O Pregão", Castelo de Vide, 1988



2 poemas do meu amigo Vasco

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mudo, mudo sim

Mudo até emudecer.

Farto de gente cuja voz

Não acompanha os gestos,

Como andar perdido numa cidade

De esquinas sem rosto,

Até ir ter ao rio

Que nunca é o mesmo

A não ser que façamos parte da torrente.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Para com mais e com menos rigor entender, traduzi este poema do Jorge Luís Borges citado pelo meu amigo J.:

Já não serei feliz. Talvez não importe.
Há tantas outras coisas no mundo;
qualquer instante é mais profundo
e variado que o mar. A vida é curta
e ainda que as horas sejam tão compridas, uma
obscura maravilha nos assombra,
a morte, esse outro mar, essa outra seta
que nos livra do sol e da lua
e do amor. O extâse que me deste
e que me tiraste deve ser apagado;
o que foi tudo tem que ser nada.
Só me resta o gozo de estar triste,
esse vão hábito que me inclina
ao Sul, a certa porta, a certa esquina

Hei-lo com a língua com que foi feito:

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta
y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna
y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Em cada palavra há muitos sentidos
(um envelope com muitos pombos
correio ;)
Tapar o sol com uma peneira,
Meter o mar na cova da praia,
É o que é pretender falar,
Aquém da Poesia.
Mais certezas,
Só no suicídio ou
Num beijo apaixonado