Chove. Chove ininterruptamente. Esta chuva leva-me a uma
choupana desaparecida. Uma miserável taberna coberta de colmo. Em frente do
Largo da Estação. Nos meus vinte anos? Por aí, bem encravada no passado. Começou
a chover e o monge abrigou-se ali. E começou a beber. Os donos do tugúrio
queriam fechar a porta, o monge continuava a beber, sucediam-se as embaixadas
para o demover a abandonar o local. Era já tarde – noite cerrada – mas como a chuva
continuava a cair o monge continuava a beber. Dizia que só parava quando a
chuva parasse. Não sei, já não me lembro, como acabou a história. Mas nunca a
esqueci e quando chove muito vem-me à memória.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
terça-feira, 22 de março de 2016
sábado, 5 de março de 2016
A
solidão matou-o.
Com
o seu desaparecimento a minha acentou-se e aquilo que julguei temporário – e por
conseguinte, suportável – tornou-se difícil de aguentar. Não a condenação ao
silêncio, mas o facto de poder falar e não ter com quem.
Desde
cedo os amigos me abandonaram. Algo acima de nós o determinou.
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
O prazer da escrita
‘Escrevo só
porque me ajuda a pensar’
Macedonio
Fernandez
Durante dois
ou três anos frequentei a mesma esplanada. Com o sol da manhã, o frio, até com
a chuva forte fustigando o toldo. Criei raízes. Não precisava de encomendar o
café. Ela – a patroa, a empregada – já sabia de antemão. Conhecia já os
fregueses mais habituais. Ali passei, no conjunto, muitas horas, com os olhos
no vazio enquanto procurava esta ou aquela palavra para a conduzir a este
caderno. Uma prece matinal e quotidiana. Depois, respirava fundo, levantava-me
e partia para o dia.
De repente,
tudo se alterou e mudei de poiso, não de costume. E aqui estou. Mas aquele
lugar, aquela esplanada com os fulgores de aqueles momentos moram e morrerão em
mim quando eu também morrer.
Post-scriptum:
Aí esperei
em vão que a musa encarnada se sentasse ao meu lado mas, por outro lado, obtive
um ponto de apoio para a ave do pensamento poisar os pés nesse porto de abrigo.
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
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