sexta-feira, 15 de abril de 2016



Chove. Chove ininterruptamente. Esta chuva leva-me a uma choupana desaparecida. Uma miserável taberna coberta de colmo. Em frente do Largo da Estação. Nos meus vinte anos? Por aí, bem encravada no passado. Começou a chover e o monge abrigou-se ali. E começou a beber. Os donos do tugúrio queriam fechar a porta, o monge continuava a beber, sucediam-se as embaixadas para o demover a abandonar o local. Era já tarde – noite cerrada – mas como a chuva continuava a cair o monge continuava a beber. Dizia que só parava quando a chuva parasse. Não sei, já não me lembro, como acabou a história. Mas nunca a esqueci e quando chove muito vem-me à memória.

quinta-feira, 24 de março de 2016

terça-feira, 22 de março de 2016





Afinal a história  de todas as vidas é a mesma e o destino é um autocarro que segue imperturbavelmente a sua marcha indiferente a quem atrasado corre desesperadamente para a paragem fora do seu alcance a que nunca chegará a tempo ou a quem desespera por estar há muito ou à demasiado à espera.

sábado, 5 de março de 2016



A solidão matou-o.
Com o seu desaparecimento a minha acentou-se e aquilo que julguei temporário – e por conseguinte, suportável – tornou-se difícil de aguentar. Não a condenação ao silêncio, mas o facto de poder falar e não ter com quem.

Desde cedo os amigos me abandonaram. Algo acima de nós o determinou.












terça-feira, 26 de janeiro de 2016



O mundo tornou-se ininteligível e isso empurrou-nos para o abismo: uma maratona sem fim e um mutismo insuportável. Não ter acreditado em ti foi, e será sempre, a pior das deslealdades.





terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O prazer da escrita


‘Escrevo só porque me ajuda a pensar’

Macedonio Fernandez


Durante dois ou três anos frequentei a mesma esplanada. Com o sol da manhã, o frio, até com a chuva forte fustigando o toldo. Criei raízes. Não precisava de encomendar o café. Ela – a patroa, a empregada – já sabia de antemão. Conhecia já os fregueses mais habituais. Ali passei, no conjunto, muitas horas, com os olhos no vazio enquanto procurava esta ou aquela palavra para a conduzir a este caderno. Uma prece matinal e quotidiana. Depois, respirava fundo, levantava-me e partia para o dia.
De repente, tudo se alterou e mudei de poiso, não de costume. E aqui estou. Mas aquele lugar, aquela esplanada com os fulgores de aqueles momentos moram e morrerão em mim quando eu também morrer.

Post-scriptum:
Aí esperei em vão que a musa encarnada se sentasse ao meu lado mas, por outro lado, obtive um ponto de apoio para a ave do pensamento poisar os pés nesse porto de abrigo.