As horas passam sincopadas como badaladas. A superfície das águas desliza e reverbera sobre o mar; o azul debate-se contra o chapão prateado do reflexo do sol. Acompanhando a linha do horizonte uma magra tira cinzenta de névoa protela a vinda do calor. Escrevo em lugar de desenhar. Na escrita, além do sensual avançar da caneta no papel, persigo a palavra certa no cardume das que me ocorrem encobrindo a que procuro.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
quinta-feira, 28 de julho de 2016
À beira das férias, interrompi os tratamentos. Recomeçarei a partir dos meados de Setembro. Sempre evitei esta toada prosaica por pensar que essa poalha a levaria o tempo, o que ficaria seria o que dele se libertasse. Mas suponho que esteja enganado, nada fica, nem o rasteiro nem o altaneiro: e, porventura, é o insignificante que mais tarde acende as luzes da memória.
Vou aqui também deixar claro -- sem receio de lamúrias -- que só encontrei pessoas com pouca coragem e sem fé ou sem imaginação para inventarem a sua própria vida.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
É assustador o apagão da memória. (Do que acabamos de fazer...): como consolação apenas pensarmos que estávamos tão distraídos pela força da concentração nos nossos pensamentos que esquecemos tudo. Mas parece desculpa de mau pagador, para não encararmos a progressiva incapacidade de usar o piloto automático sem tirar as mãos do volante.
[Já outras memórias não são memórias mas presenças. À medida que avançamos vão-se apagando as luzes...]
[Já outras memórias não são memórias mas presenças. À medida que avançamos vão-se apagando as luzes...]
segunda-feira, 18 de julho de 2016
"Grande e Estimado R.!
Aqui estou eu a corresponder ao teu feito epistolar. Do Amor, não outras coisas senão bocas se podem mandar, já que tal coisa é coisa que só na febril imaginação toma e se torna corpo. À medida que se alarga o tempo decorrido após a perca da inocência apenas nos podemos maravilhar como nos pareceu tão real quando o vivemos. É assim um fenómeno que vive na memória; no presente é apenas angústia e incerteza: no futuro já há algum tempo que não acreditamos.
Afastando tais fantasmas e indo ao concreto, tropeço logo num esquema estrutural que me apresentas, qual andaime para trepar ao cume da narrativa: sinto-me vítima de vertigens e tenho dificuldade de respirar em tais paragens.
Acredito mais triângulos das bermudas (se acaso a história se passa no Verão), ou no sacrossanto amoroso; mas aí tendo mais, não para as relações biunívocas entre os seus vértices, mas para o binário em que fatalmente haverá alguém excluído. E isto remete-nos para o adultério que, como dizia outro amigo meu, está sempre na génese de uma separação na medida que é o surgimento do terceiro elemento que despoleta o desfecho e o fim da relação. (É claro que o tal adultério pode não passar de uma fantasia).
Claro que a rotina mata a paixão -- mas ainda está por descobrir o fogo eterno, ou o motor imóvel da sua marcha.
(Dão-se Alvíssaras!)
O filólogo professor [do filme A academia das Musas], diz bem: o amor imaginado é o real. Mas não posso dizer afirmar tal coisa assim desassombradamente, sob o risco de ser um descrente dessa religião, embora continue a acreditar na alquimia sem grandes ilusões, finjo que acredito e chego mesmo a acreditar.
Tudo que é autêntico é real, sobretudo o que imaginamos.
Obrigado pelos Poemas.
[não te apoquentes pelo tempo passado na toca do F.]"
sábado, 16 de julho de 2016
A vida não tem a ver com merecimento; e é fatal: passasse sempre ao lado dela.
Os velhos! (Os surpreendidos pela velhice!). Além de não valer a pena lutar por nada (pois se vem tudo dar na mesma!), torna-se omnipresente o papel da sorte no destino. É de tal forma que chega a ser o mesmo: a sorte, ou o destino.
Ufa!
Os velhos! (Os surpreendidos pela velhice!). Além de não valer a pena lutar por nada (pois se vem tudo dar na mesma!), torna-se omnipresente o papel da sorte no destino. É de tal forma que chega a ser o mesmo: a sorte, ou o destino.
Ufa!
sexta-feira, 8 de julho de 2016
- Quem se proponha escrever deve ser indulgente consigo mesmo.
- Não procure elogios que pressuponham a exposição do trabalho em curso. Isto não quer dizer que não fale do trabalho; apenas não o divulgue. O desejo crescente de comunicação vai empurrá-lo para a conclusão do trabalho.
- Nas suas condições de trabalho, evite qualquer tipo de mediocridade quotidiana.
- Evite utilizar materiais escolhidos ao acaso para escrever. Eleja certo tipo de papel, caneta, tinta.
- Mantenha o caderno de notas rigorosamente atento ao mínimo pensamento.
- Seja circunspecto nas anotações e quanto mais o for mais elas amadurecerão. A palavra conquista o pensamento, mas a escrita domina-o.
- Não (nunca) pare de escrever por esgotamento do tema (quando nada mais lhe ocorre).
- Preencha as lacunas da inspiração reescrevendo cuidadosamente: a intuição despertará (reacender-se-à) no processo.
- Nenhum dia sem uma linha -- mas semanas, sim.
- Apenas considere acabado o trabalho quando tenha conseguido passar um dia e uma noite sem pensar nele.
- Escreva a conclusão da sua obra fora do local onde habitualmente trabalha.
- As etapas da composição:
A vantagem de passar a limpo, da reescrita, é que fixa a atenção apenas na forma.
A ideia mata a inspiração, o estilo sufoca a ideia, a escrita recompõe o estilo.
13. O trabalho é a máscara mortuária da sua concepção.
WALTER BENJAMIN
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